terça-feira, 16 de junho de 2009

Das palavras à ação

Com esperança vi no dia 14 de junho a reeleição de Martiniano Costa para a presidência da Central Única dos Trabalhadores (CUT-BA) no 12º Congresso da entidade que reuniu cerca de 400 delegados onde, pela primeira vez, todas as forças políticas da Central compuseram uma chapa única no estado.

O discurso de posse aponta para a independência da CUT-BA diante do Estado, dos partidos e do patronato. Martiniano Costa falou da necessidade de defender os direitos dos trabalhadores e lutar para que se acabe na Bahia com "ilhas" nas quais não chegam água, energia elétrica, estradas, ou assistência médica.

Esperamos que se passe das palavras para a ação e a CUT-BA possa ser efetivamente um instrumento de defesa dos trabalhadores e não uma auxiliar do governo estadual. Onde houver acertos creio que o movimento sindical deve apoiar, porém, onde houver omissão, incompetência administrativas, como é o caso do tratamento dispensado aos trabalhadores terceirizados, o movimento sindical deve de forma unificada combater esse absurdo.

Sou filiado ao PT, porém, como sindicalista, não abro mão do direito e do dever de defender os trabalhadores em limpeza representados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia (Sindilimp-BA) do qual faço parte da diretoria. Deixar que o petista supere os interesses dos trabalhadores para mim é peleguismo.

O PT que eu vi nascer era um partido diferente que não nasceu nos gabinetes, mas no movimento popular. Surgiu um partido verdadeiramente de massas, capaz de conciliar o intelectual e o operário, o ateu e o catequista etc.

O que resta desse PT histórico, o primeiro partido de esquerda da história do Brasil que alcançou um sólido lastro social? Quase nada.

O tratamento dispensado pelo governo da Bahia aos trabalhadores terceirizados em tudo faz lembrar as gestões que em tese o PT e seus aliados derrotaram. A arrogância de secretários e superintendentes são as mesmas ou quase as mesmas.

Sou um ativista e não um burocrata. Estou nas assembléias e mobilizações da minha categoria e fico triste quando companheiras e companheiros que vestiram literalmente a camisa do PT hoje fazem críticas e se dizem decepcionados com os rumos que o governo Wagner tomou. O que mais me entristece é que não posso fazer a defesa.

Faço as críticas não como um adversário ou inimigo. As faço para que a correção de rumo seja providenciada para que a decepção não aumente. Não se pode cair no discurso barato de apenas dizer que "a Bahia está mudando". Ora, ela está mudando sozinha sem a participação popular?

Finalizo desejando uma excelente gestão ao companheiro Martiniano Costa e demais diretores recém eleitos e reafirmo minha esperança que a CUT-BA possa ser um instrumento a mais na luta pelos direitos de todos os trabalhadores, em especial os mais explorados que são os terceirizados, e que esta defesa ocorra de forma desassombrada em todos os campos. Uma central sindical não deve ser corrente de transmissão de um partido político ou de administrações municipais, estadual e federal que tem a participação desse. A obrigação de uma central sindical deve ser com os trabalhadores e deve atuar de forma independente.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Mesmo time que ganha deve mudar

No dia 16 de maio comemora-se o Dia do Trabalhador em Limpeza. Para nós do Sindilimp-BA (Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia) a categoria é essencial para o meio ambiente, saúde pública, melhor qualidade de vida da população, enfim, merece o respeito do Estado, porém, do ponto de vista institucional, nada se marcou para a data.

Isso não me surpreende porque espaço se conquista com ação política. Veja que estou dizendo ação política e não apenas partidária.

Sou filiado ao PT, mas isso não retira o meu sentido e o direito da crítica. Se time ganhando precisa mudar para se renovar e enfrentar novos desafios com mais raça e classe, imagina um time que está perdendo. Quero mostrar alguns exemplos que exigem mudanças radicais e profundas nos rumos do governo estadual para que a vontade popular não seja mais uma vez frustrada.

Quando os trabalhadores terceirizados ficam três ou quatro meses com salários atrasados e procuramos as empresas para negociar, a primeira resposta que recebemos é a de que o governo estadual não paga as faturas há meses.

Não passamos um único dia sem ler ou ver nos noticiários as empresas declarando que a relação financeira com o governo estadual chegou a um ponto insustentável. Para a nossa categoria o castigo é maior porque a inadimplência do governo vai acabar em calote aos trabalhadores. O pior é que ninguém parece se importar e a resposta governamental sempre é a mesma: a tal “herança maldita recebida”. Quem agüenta esse discurso depois de dois anos e cinco meses de mandato?

Ninguém ou quase ninguém está recebendo em dia do governo da Bahia. É assim com a área de asseio, limpeza, conservação, indústria da construção civil, alimentação, saúde e até plano de saúde de empresas estatais.

O Sindicato dos Médicos demonstra que existe déficit de profissionais em sua área de atuação. A APLB-Sindicato prova com números a falta de professores em salas de aulas o que tem prejudicado a já carente formação dos estudantes da rede pública. A sensação de insegurança pública cresce. Esses são apenas alguns exemplos porque esse espaço é pequeno para listar todos e tão enormes problemas administrativos e políticos do atual governo.

Cada dia estudantes de um colégio estadual vão às ruas manifestar seu protesto contra a falta de professores e a ausência de limpeza. Problemas causados pelo governo estadual que inventou o tal metro quadrado limpo e não se preparou para o início do ano letivo de forma satisfatória.

Finalizando com a questão do futebol e da mexida no time titular para vencer a partida, ainda dá tempo para mudar o rumo da gestão e cumprir o que se prometeu na campanha eleitoral. Espero que o governo tenha a capacidade de mostrar mais garra, empenho, competência, qualidade e colocar as pessoas certas nos cargos certos para que não amargue uma derrota em 2010.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Por uma Educação digna para o nosso povo

Tenho atuado como sindicalista junto a minha categoria, os trabalhadores em limpeza, e na luta comunitária do Pernambués, bairro popular onde tenho minhas raízes. Com este perfil não poderia deixar de estar ao lado dos estudantes, funcionários e professores que lutam por uma escola pública, gratuita e de qualidade.

No Brasil existe uma distância entre a lei e o mundo real. A Constituição Federal diz que a Educação é um direito de todos e dever do Estado. Isso ocorre no dia-a-dia? Existe uma lei aprovada que assegura um piso nacional para o magistério no valor de R$950,00. A lei foi sancionada em 2008 e prevê que o piso nacional seja pago a todos os professores da rede pública para uma carga horária de 40 horas semanais, a partir de 2010. O que tem sido feito para que isso ocorra. Apóio o movimento dos trabalhadores que ocorre no dia 24 de abril em todo o Brasil para que a lei saia do papel.
Aqui na Bahia vivemos um contraste ainda maior. O governador Jaques Wagner e toda a cúpula da Secretaria da Educação (SEC), nos governos anteriores, criticavam a contratação sem concurso e a utilização do tal Regime Especial de Direito Administrativo (Reda). Agora no governo todos mudaram. Realizar concurso e contratar professores concursados virou um estorvo que só “oneraria os cofres estaduais”. Será que aquilo que vale para Francisco não vale para Chico?

A contratação, mesmo precária através do Reda, só ocorreu depois da positiva interferência do Ministério Público Estadual (MPE). O tal compromisso de campanha eleitoral de “evolução através da educação” ao que parece ficou no passado. Enquanto a APLB-Sindicato (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia) afirma que há um déficit de cerca de 10 mil professores o que tem prejudicado o ensino público na Bahia, o governo estadual pressionado selecionará 1.508 professores por Reda. Isso pode ser qualquer coisa menos uma política pública para a educação pública que atende em sua quase totalidade a população carente.

A SEC pode dizer que não sabe da existência de desvios de funções onde professores habilitados em algumas matérias são responsáveis por outras para as quais eles não se formaram? Será que um aluno da periferia que está sem aula por falta de professor em sala de aula pode disputar com um pouco de possibilidade um vestibular para uma universidade pública? Os dados da APLB-Sindicato falam por si: são cerca de 1.700 escolas estaduais e há déficit de professores em quase todas as escolas do interior. Em Salvador, a situação é mais grave em regiões do subúrbio e periféricas.

O discurso da “herança maldita” ficou velho depois de dois anos e quatro meses de mandato. É algo que não justifica a falta de uma ação correta na área de educação que deve ser pensada e repensada por pessoas capacitadas e de verdade qualificadas. Usar apenas o critério de filiação partidária já mostrou, no passado, que é algo que não contribui com o avanço desse setor na Bahia.

Por outro lado, como sindicalista, vejo um governo estadual omisso em relação aos trabalhadores terceirizados. Recentemente o Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia (Sindilimp-BA) enviou ofícios para Procuradoria Geral do Estado e para as Secretarias de Educação, Finanças e de Administração do Estado exigindo uma providência do governo em relação aos constantes atrasos nos pagamentos e condições inadequadas de trabalho aos funcionários terceirizados. A implantação do programa de metro quadro limpo, ou seja, o número de funcionários que atuam na limpeza é determinado pela área do local, como por exemplo, uma escola. Isso tem sobrecarregado os trabalhadores e o serviço tem se mostrado insuficiente.

As manifestações dos estudantes dos Colégios Estaduais Landulfo Alves e Hamilton de Jesus Lopes, localizados na Avenida Oscar Pontes, Água de Meninos, exigindo higiene adequada demonstram a veracidade de nossa crítica. Há trabalhadores em limpeza, sem receber salários, vale transporte e tíquete alimentação em dia.

Outra coisa que a SEC finge não ver é que em algumas escolas a limpeza, asseio e conservação só estão se dando em razão da ação da direção da unidade escolar e solidariedade e união de funcionários, professores e comunidade que fazem mutirão de limpeza para não deixar a escola imunda. Será que isso é o ideal para uma política de Estado para a Educação?

Para a população em geral, em especial para a juventude dos bairros populares e carentes, uma escola pública, gratuita e de qualidade é algo que representa a única alternativa para que ocorra a ascensão social. Destruir a educação pública é jogar na exclusão social milhares de jovens que serão atirados ninguém sabe onde. Depois não adianta chorar. Já passou da hora de mudar!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Homenagem a Jônatas Conceição*

"Morreu na luta, mas a luta não morre". Uso este texto de Cleidiana Ramos, publicado em seu blog em A Tarde para homenagear o companheiro Jônatas Conceição, um dos fundadores do MNU e responsável por colocar na consciência de tantos jovens a necessidade da luta contra o racismo. Faleceu no dia 3 de abril de 2009. Suas idéias e ideais não morrem nunca.
Luiz Carlos Suíca

A deputada Marizete Pereira (PMDB-BA) apresentou, hoje (08/04/09), na Assembléia Legislativa, uma moção de pesar pelo falecimento de Jônatas Conceição, ocorrido no último dia 3. É a primeira de certamente muitas outras homenagens que devem vir à grande figura intelectual e humana que Jônatas foi.

"Não tive a honra e a oportunidade do convívio com Jonatas. Fiquei impressionada e orgulhosa por suas obras e pela sua abnegação quando o tema era negritude. Portanto, diante da sua prematura partida deixo ao seu filho Kayodê, sua esposa Maria Luiza Passos, familiares e militantes do movimento negro, o nosso desejo de conforto espiritual e a certeza de que as obras deixadas por Jonatas servirão de exemplo para que gerações futuras possam usufruir de uma fonte inesgotável de sabedoria e luta libertária em favor do povo negro", diz um trecho da moção.

Acrescento aqui algumas informações que faltaram tanto no post anterior como na matéria publicada em A TARDE e assinada por mim: Jônatas graduou-se em Letras Vernáculas com Francês em 1975 pela Ufba e especializou-se em Linguística e tinha os títulos de mestre e doutor.

Além das já conhecidas atuações de Jônatas na militância política e no Ilê Aiyê, ele também teve uma relação muito forte com o rádio. A jornalista Olívia Soares, num telefonema emocionado após saber da partida do amigo, me contou o pioneirismo de Jônatas em trazer para o rádio a discussão sobre temas raciais num programa mantido pelo Irdeb no governo Waldir Pires. Jônatas voltou ao Irdeb via o Tambores da Liberdade.

Em sua primeira passagem pelo Irdeb, Jônatas conviveu de forma mais próxima com um grande amigo meu, o jornalista José Bonfim. Foi através de Bonfim que comecei a admirar Jônatas, de longe, por conta das suas idéias. Bonfim, o encontrava regularmente, por conta de um baba que juntava vários jornalistas e rendia divertidíssimas histórias.

Infelizmente para mim só fui conhecê-lo pessoalmente muito mais tarde e em encontros rápidos para matérias, mas o que ainda sim considero privilégio.

Adeus ao poeta Jônatas*

O poeta, escritor e um dos mais importantes intelectuais do movimento negro brasileiro, Jônatas Conceição, 56 anos, faleceu na manhã de hoje no Hospital da Cidade por conta de um câncer digestivo. O sepultamento será às 16h30 no Jardim da Saudade.

Jônatas atuou em várias frentes na luta contra o racismo e valorização da identidade e culturas negras: movimento social, literatura, Carnaval e academia.

"Jônatas era um poeta profundamente ligado às suas raízes em Saubara. Eu sempre disse que ele vivia ‘saubariando’ a vida", disse, emocionado, o poeta José Carlos Limeira, um dos grandes amigos de Jônatas e companheiro nas letras.

Jônatas foi um dos militantes pioneiros do Movimento Negro Unificado (MNU) e era diretor do bloco afro Ilê Aiyê onde elaborava os cadernos educativos da instituição. Foi professor da Uneb e desenvolveu sua pesquisa de mestrado sobre a poesia dos quilombos intitulada Vozes Quilombolas – Uma Poética Brasileira, publicada em 2005. Em 2000 publicou em companhia de Lindinalva Barbosa a antologia Quilombo de Palavras- a literatura dos afro-descendentes, dentre outras várias obras.

"Era um guerreiro incansável na sua aparente quietude. Acho que era como a própria água, um elemento ao qual ele era muito ligado. Ele ia operando transformações profundas de uma maneira na maioria das vezes silenciosa", destaca o também poeta e grande amigo de Jônatas, Landê Onawale.

A literatura foi o principal veículo do vigor político e guerreiro de Jônatas, dono de uma personalidade introspectiva. "Jônatas tinha aquele jeito tímido, calado introspectivo, mas transpirava o amor por suas raízes, pelos orixás e pelo Ilê Aiyê", completa Limeira.

Era nos textos que Jônatas deixava transparecer seu pensamento sobre questões como o racismo e desigualdade. "No seu jeito calado ele era radical, no sentido, de como diz sua irmã Ana Célia, de quem segue as coisas com horizontalidade e profundidade, como uma raiz. Neste sentido Jônatas realmente deixou marcas profundas em todos os ambientes nos quais atuou", completa Landê.

Pioneirismo é também uma outra palavra bastante usada pelos amigos para defini-lo. Jônatas era um dos mais freqüentes colaboradores do Cadernos Negros, a mais importante publicação brasileira para divulgação da literatura negra.

Em 2007, numa entrevista A TARDE sobre o lançamento de uma edição do Cadernos em Salvador, ele disse: "Infelizmente, os escritores negros são ainda vozes marginais, no sentido de não conseguirmos furar o bloqueio editorial brasileiro, que é baseado numa ideologia elitista e branca, também em relação à temática, como se nós, negros, não produzíssemos cultura".

Guardião do compromisso de contar a história de luta do povo negro ele foi o responsável por compilar textos que contam a história de formação do MNU, na coletânea Movimento Negro Unificado- 1978-1988-10 anos de luta contra o racismo. Jônatas deixa um filho de 12 anos, Kayodê.
*Cleidiana Ramos

sexta-feira, 6 de março de 2009

É hora de reação do movimento sindical e popular

Há um processo de acirramento contra o movimento popular que nos preocupa. As entidades sindicais e populares não podem ficar alheias à situação porque quando reagirmos poderá ser tarde.

As declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, contra o MST; o relatório da CPI dos Grampos e a invasão policial da comunidade de Nova Divinéia, no bairro do IAPI em Salvador, em minha opinião, não receberam a necessária reação do movimento popular e sindical.

Sou a favor da legalidade e do Estado de Direito. Claro que não defendo ações armadas contra produtores rurais e desmandos nos campos, porém, o que aconteceu em Pernambuco quando da ocupação de terras pelo MST?

Até onde sei o ministro Gilmar Mendes é membro do Judiciário e não do Legislativo ou Executivo. Ele deve se manifestar sobre assunto que estiver na Suprema Corte e não fazer comentários políticos como se fosse porta-voz de uma corrente política oposicionista.

Em Pernambuco há cerca de 100 famílias acampadas há oito anos esperando uma decisão judicial sobre duas áreas em litígio. As famílias, mesmo trabalhando, plantando e tirando da terra o seu sustento, sofreram mais de 20 despejos.

Ora, um fazendeiro contrata pistoleiros, transformados em santos pelas declarações do ministro Gilmar Mendes, que foram armados ao acampamento fazer provocações. A reação foi no mesmo grau de intensidade e os quatro pistoleiros foram mortos. Volto a repetir que defendo uma solução negociada e dentro da lei e não na bala. Pergunto: Há santos nesse episódio?

Vamos ao episódio do IAPI, na comunidade Nova Divinéia. Um policial federal foi covardemente assassinado e a polícia deveria agir. Isso é evidente, porém, entrar metendo o pé na porta de casebres como mostrado na televisão, sem nenhum mandado judicial, isso é legal e aceitável? Por que não atuam assim contra o banqueiro Daniel Dantas que inclusive foi liberado da cadeia em prazo recorde pelo ministro Gilmar Mendes.

Os delinqüentes que mataram o policial deveriam ser capturados, presos, julgados e condenados pela Justiça. Isso ocorreu? As famílias que moram no local estão aterrorizadas até hoje com o episódio.

Parece que o lema de legalidade só serve para os ricos. Não se pode prender um rico sem que transite em julgado em todas as instâncias a ação judicial. Ora, metade da população carcerária brasileira, de acordo com números oficiais do Ministério da Justiça, espera decisão semelhante àquela que o banqueiro Daniel Dantas recebeu do presidente do Supremo Tribunal Federal. Do total de 422.373 presos em todo o País, mais de 211 mil estão em situação provisória - ainda sem condenação - e poderiam aguardar o julgamento em liberdade, como ocorreu com Dantas. A diferença é que o pobre, o ladrão pé-de-chinelo, depende de uma Defensoria Pública superlotada e carente de recursos. Os ricos...

Em relação ao relatório apresentado pelo deputado federal Nelson Pelegrino (PT-BA) na CPI dos Grampos, mais uma vez se pegaram os bagrinhos e os peixes grandes escaparam. O juridiquês das explicações não consegue convencer meu sentimento de que é mais fácil atingir aos menores que aos maiores. Se mais de três mil sofrem escutas ilegais, porque apenas cinco policiais civis foram apontados para indiciamento? Cadê os outros, inclusive os da Bahia que grampearam o próprio deputado Pelegrino?

Creio que chegou o momento, ou melhor, passou do momento de reagirmos de forma coletiva. As entidades sindicais e populares são representantes de suas bases e devem atuar nesse sentido e não se calar diante da escalada do conservadorismo venha de onde vier.

Encerro propondo que as centrais sindicais, em especial a CUT, e as entidades sociais em geral abram um debate amplo e franco com todos os setores da sociedade que não desejam nenhum retrocesso no processo político e social do Brasil, em especial o da retirada de direitos constitucionais e trabalhistas como ameaça a nebulosa nuvem que paira sobre a sociedade. Precisamos de uma ação unitária para manter e ampliar nossos direitos.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Mulher atrás de um grande homem?

Dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher e quero aproveitar este período para discutir e tentar derrubar alguns mitos que se petrificaram em nossa cultura. Um deles é o tal: "Atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher". Ora, por que atrás e não lado a lado, por exemplo?

Uma figura pública que demonstra como uma mulher não pode e não deve ser engolida pela personalidade do marido foi a professora Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ela fez sua própria carreira, tanto acadêmica como política. Nunca abriu mão de suas convicções, criticava o governo do próprio marido e defendia projetos sociais que sempre acreditou. Essa é uma grande mulher que merece nosso respeito independente das convicções políticas de cada um.

Na Bahia, Fátima Mendonça, esposa do governador Jaques Wagner, aparece como uma promessa de mulher independente e solidária. Vamos ver.

Quero aqui prestar uma homenagem a diversas mulheres que atuam nos sindicatos dos trabalhadores e com garra construíram sua própria história e referência em um ambiente quase sempre dominado pelos homens. Faço uma referência especial à nossa coordenadora geral do Sindilimp-BA, Ana Angélica Rabello. Quando foi eleita sofreu uma série de agressões morais de antigas e superadas direções que não a aceitavam como dirigente principal da nossa entidade. O machismo se manifesta em todos os ambientes, infelizmente.

Sou da categoria dos trabalhadores em limpeza onde a maioria das trabalhadoras é negras e na escala social ainda sofrem todo o preconceito e desvantagens do sistema injusto e racista do país. Nunca é demais repetir que todas as pesquisas mostram a mulher negra como a que ainda apresenta baixa escolaridade, trabalha mais e não ganha o mesmo salário dos homens e tantos outros obstáculos.

Conheço diversas mulheres negras que com muita luta e competência conquistaram melhores cargos, algumas são referências nas universidades. Quando conversamos, várias falam do preço alto pago pela conquista porque elas tiveram e têm que comprovar além da competência profissional a superação do preconceito racial e de gênero.

Tenho orgulho de ser descendente de mulheres guerreiras. Foi assim que chegamos aqui. Foram elas que ao lado dos homens negros lutaram nos castelos prisionais, porões dos navios negreiros, casas grandes e senzalas.

Já falamos aqui sobre a personalidade da mulher que não aceitou "ficar atrás de um grande homem" e da resistência da mulher negra. Para finalizar quero comentar sobre a luta mais geral da mulher, em especial a trabalhadora, contra a violência doméstica e pela conquista de direitos iguais no ambiente do trabalho.

A lei Maria da Penha significa um avanço para erradicar a violência e a discriminação contra a mulher, porém, muito ainda há por ser feito. Temos que caminhar muito pela igualdade de direitos. Não basta apenas o reconhecimento legal. Falta ainda o reconhecimento moral da igualdade e esta é uma conquista do dia-a-dia. Aqui entra o papel fundamental da educação e conscientização. É uma questão de respeito.

Espero que esta discussão não fique apenas neste período do Dia Internacional da Mulher, mas que seja uma constante. A luta da mulher é a luta de toda sociedade pois a mulher livre liberta também o homem do papel autoritário que a sociedade machista definiu como sendo o dele.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O lugar do negro no Carnaval da Bahia

A preservação da cultura negra no Brasil, em especial em Salvador, a maior cidade negra fora da África, interessa não apenas aos afrodescendentes e sim a todos os brasileiros porque ela é um dos pilares do que somos hoje enquanto povo e nação.

Além do extermínio físico da nossa juventude, vemos também a tentativa de destruição de nossa identidade cultural e ofuscar nossa herança, como se isso fosse possível.

No período do Carnaval o que mais vemos são discussões sobre a democratização da maior festa popular de Salvador. Qual é o lugar do negro no Carnaval da Bahia? Esse é o questionamento que faço.

Quando se discrimina os blocos afros, afoxés e outros grupos que reúnem em sua maioria afrodescendentes entendemos que isso representa um ataque à nossa cultura, nossa origem e nossa raiz.

Uma coisa lamentável que não se rompe por falta de vontade política é a famigerada ordem de entrada na avenida. Os blocos de trio são os donos, parece até que por vontade divina ou hereditariedade, do espaço público. Há uma série que nunca se rompe e que deixa os blocos afros somente para a madrugada. Por que não se estabelecer um novo critério que acabe com uma regra que o povo negro não estabeleceu já que o Ilê Aiyê, por exemplo, iniciou suas atividades em 1974? Por que esconder a negritude de nossa cidade?

Até mesmo uma grande parte dos compositores das músicas gravadas pelas grandes estrelas da chamada “Axé Music” são moradores dos bairros mais carentes como Nordeste de Amaralina, Engenho Velho da Federação, Liberdade, Subúrbio Ferroviário e outros. Não por coincidência são “quase todos pretos. Ou quase pretos”. São desconhecidos e invisíveis. A música é sempre atribuída ao intérprete. Quem ganha com a invisibilidade do negro?

Temos uma cultura de resistência e vamos continuar nessa postura. Não aceitamos ser coadjuvantes em nossa própria casa. Nossos sábios e mestres podem não ser citados, mas é nossa a cultura que eles cantam mesmo nos negando. Acabar com isso não se faz do dia para a noite porque temos que levar em consideração que um quinto da existência do Brasil se deu debaixo de uma brutal escravidão do negro.

A resposta dos negros sempre teve na cultura sua forma mais forte para superar as dificuldades e neste momento que se discute o Carnaval é oportuno que a sociedade debata com firmeza a questão de combate ao racismo e destruir a imagem mental de inferioridade que tentam colocar sobre a população negra.

Encerro homenageando Jucelina Santos Nascimento, Mãe Bandagola Unzambi, do Terreiro Unzó Niquice Kwa Ningunzo Kayango, nossa querida companheira Cecé, falecida no dia 15 e o corpo enterrado no dia 17 de fevereiro. Que sua luz continue nos iluminando e que possamos continuar sua luta por uma sociedade igualitária e justa como ela sonhou.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Orgulho de ser da diretoria do Sindilimp-BA

A diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia (Sindilimp-BA), a qual tenho orgulho de pertencer, pensa longe e pensa grande. Não paramos apenas em reivindicações econômicas. Queremos ir mais e mais longe e dotar a nossa categoria e seus familiares de auto-estima cada dia mais forte.

Pensando assim e não aceitando o lugar menor que a sociedade racista quer nos colocar, firmamos uma parceria com o Instituto Solvi, gestor das ações de responsabilidade social das empresas do grupo Vega e logo após o Carnaval iniciaremos um Curso de Capacitação e Inclusão Digital.

O Curso de Capacitação e Inclusão Digital está aberto para o trabalhador em limpeza e seus dependentes. Ofereceremos noções básicas de Word, Excel, Windows e Internet.

O objetivo do Sindilimp-BA é firmar outras parcerias com empresas, organizações governamentais e não governamentais e assim contribuir com o aprimoramento da categoria e possibilitar aos dependentes, em especial os jovens, uma chance maior e mais qualificada de entrar no mercado de trabalho.

Onde está a economia de recursos públicos no governo da Bahia?

Mais uma vez solicitamos do governo do Estado da Bahia uma resposta a nossa questão acima.

A diretoria do Sindilimp-BA tem um compromisso com a categoria não apenas no aspecto sindical, defesa de melhores salários e condições de vida dignas. Atuamos também na questão social e como cidadãos queremos que se mude o que está errado nas administrações municipal, estadual e federal.

Quando houve a mudança de empresa para cuidar da limpeza na área de Saúde na Bahia pensávamos que finalmente haveria transparência e os recursos públicos seriam gastos não para beneficiar empresários e sim para melhor os postos de saúde, hospitais, escolas etc.

Com tristeza vemos que isso não ocorreu. O contrato que existia antes com a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) era em torno de R$ 2 milhões. O atual é de cerca de R$ 5 milhões. Onde está a economia? Por que não se toma uma medida imediata para acabar com esta farra e este absurdo?

Tivemos que entrar na Justiça e felizmente vencemos. O juiz Josevando Souza Andrade, do Tribunal de Justiça da Bahia, atendendo mandado de segurança impetrado pelo Sindilimp-BA concedeu liminar contra a Secretaria da Administração (SAEB) suspendendo a contratação de empresas terceirizadas que prestariam serviços nas unidades de saúde pública em todo o estado.

Esta é uma vitória de toda a sociedade e dos trabalhadores em especial. Queremos o máximo de transparência para que a população não veja recursos públicos serem gastos de forma indevida.
Queremos o uso correto, criterioso e transparente dos recursos públicos e que os trabalhadores terceirizados não fiquem expostos a mais um drama de poder ficar sem emprego.


Esperamos e confiamos que a Procuradoria Geral do Estado, Assembléia Legislativa, SAEB, Secretaria de Saúde (Sesab) e demais interessados abram uma discussão verdadeiramente democrática. Queremos um amplo debate, de preferência em audiência pública, para que os interesses maiores da sociedade sejam salvaguardados.