segunda-feira, 20 de abril de 2009

Homenagem a Jônatas Conceição*

"Morreu na luta, mas a luta não morre". Uso este texto de Cleidiana Ramos, publicado em seu blog em A Tarde para homenagear o companheiro Jônatas Conceição, um dos fundadores do MNU e responsável por colocar na consciência de tantos jovens a necessidade da luta contra o racismo. Faleceu no dia 3 de abril de 2009. Suas idéias e ideais não morrem nunca.
Luiz Carlos Suíca

A deputada Marizete Pereira (PMDB-BA) apresentou, hoje (08/04/09), na Assembléia Legislativa, uma moção de pesar pelo falecimento de Jônatas Conceição, ocorrido no último dia 3. É a primeira de certamente muitas outras homenagens que devem vir à grande figura intelectual e humana que Jônatas foi.

"Não tive a honra e a oportunidade do convívio com Jonatas. Fiquei impressionada e orgulhosa por suas obras e pela sua abnegação quando o tema era negritude. Portanto, diante da sua prematura partida deixo ao seu filho Kayodê, sua esposa Maria Luiza Passos, familiares e militantes do movimento negro, o nosso desejo de conforto espiritual e a certeza de que as obras deixadas por Jonatas servirão de exemplo para que gerações futuras possam usufruir de uma fonte inesgotável de sabedoria e luta libertária em favor do povo negro", diz um trecho da moção.

Acrescento aqui algumas informações que faltaram tanto no post anterior como na matéria publicada em A TARDE e assinada por mim: Jônatas graduou-se em Letras Vernáculas com Francês em 1975 pela Ufba e especializou-se em Linguística e tinha os títulos de mestre e doutor.

Além das já conhecidas atuações de Jônatas na militância política e no Ilê Aiyê, ele também teve uma relação muito forte com o rádio. A jornalista Olívia Soares, num telefonema emocionado após saber da partida do amigo, me contou o pioneirismo de Jônatas em trazer para o rádio a discussão sobre temas raciais num programa mantido pelo Irdeb no governo Waldir Pires. Jônatas voltou ao Irdeb via o Tambores da Liberdade.

Em sua primeira passagem pelo Irdeb, Jônatas conviveu de forma mais próxima com um grande amigo meu, o jornalista José Bonfim. Foi através de Bonfim que comecei a admirar Jônatas, de longe, por conta das suas idéias. Bonfim, o encontrava regularmente, por conta de um baba que juntava vários jornalistas e rendia divertidíssimas histórias.

Infelizmente para mim só fui conhecê-lo pessoalmente muito mais tarde e em encontros rápidos para matérias, mas o que ainda sim considero privilégio.

Adeus ao poeta Jônatas*

O poeta, escritor e um dos mais importantes intelectuais do movimento negro brasileiro, Jônatas Conceição, 56 anos, faleceu na manhã de hoje no Hospital da Cidade por conta de um câncer digestivo. O sepultamento será às 16h30 no Jardim da Saudade.

Jônatas atuou em várias frentes na luta contra o racismo e valorização da identidade e culturas negras: movimento social, literatura, Carnaval e academia.

"Jônatas era um poeta profundamente ligado às suas raízes em Saubara. Eu sempre disse que ele vivia ‘saubariando’ a vida", disse, emocionado, o poeta José Carlos Limeira, um dos grandes amigos de Jônatas e companheiro nas letras.

Jônatas foi um dos militantes pioneiros do Movimento Negro Unificado (MNU) e era diretor do bloco afro Ilê Aiyê onde elaborava os cadernos educativos da instituição. Foi professor da Uneb e desenvolveu sua pesquisa de mestrado sobre a poesia dos quilombos intitulada Vozes Quilombolas – Uma Poética Brasileira, publicada em 2005. Em 2000 publicou em companhia de Lindinalva Barbosa a antologia Quilombo de Palavras- a literatura dos afro-descendentes, dentre outras várias obras.

"Era um guerreiro incansável na sua aparente quietude. Acho que era como a própria água, um elemento ao qual ele era muito ligado. Ele ia operando transformações profundas de uma maneira na maioria das vezes silenciosa", destaca o também poeta e grande amigo de Jônatas, Landê Onawale.

A literatura foi o principal veículo do vigor político e guerreiro de Jônatas, dono de uma personalidade introspectiva. "Jônatas tinha aquele jeito tímido, calado introspectivo, mas transpirava o amor por suas raízes, pelos orixás e pelo Ilê Aiyê", completa Limeira.

Era nos textos que Jônatas deixava transparecer seu pensamento sobre questões como o racismo e desigualdade. "No seu jeito calado ele era radical, no sentido, de como diz sua irmã Ana Célia, de quem segue as coisas com horizontalidade e profundidade, como uma raiz. Neste sentido Jônatas realmente deixou marcas profundas em todos os ambientes nos quais atuou", completa Landê.

Pioneirismo é também uma outra palavra bastante usada pelos amigos para defini-lo. Jônatas era um dos mais freqüentes colaboradores do Cadernos Negros, a mais importante publicação brasileira para divulgação da literatura negra.

Em 2007, numa entrevista A TARDE sobre o lançamento de uma edição do Cadernos em Salvador, ele disse: "Infelizmente, os escritores negros são ainda vozes marginais, no sentido de não conseguirmos furar o bloqueio editorial brasileiro, que é baseado numa ideologia elitista e branca, também em relação à temática, como se nós, negros, não produzíssemos cultura".

Guardião do compromisso de contar a história de luta do povo negro ele foi o responsável por compilar textos que contam a história de formação do MNU, na coletânea Movimento Negro Unificado- 1978-1988-10 anos de luta contra o racismo. Jônatas deixa um filho de 12 anos, Kayodê.
*Cleidiana Ramos

sexta-feira, 6 de março de 2009

É hora de reação do movimento sindical e popular

Há um processo de acirramento contra o movimento popular que nos preocupa. As entidades sindicais e populares não podem ficar alheias à situação porque quando reagirmos poderá ser tarde.

As declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, contra o MST; o relatório da CPI dos Grampos e a invasão policial da comunidade de Nova Divinéia, no bairro do IAPI em Salvador, em minha opinião, não receberam a necessária reação do movimento popular e sindical.

Sou a favor da legalidade e do Estado de Direito. Claro que não defendo ações armadas contra produtores rurais e desmandos nos campos, porém, o que aconteceu em Pernambuco quando da ocupação de terras pelo MST?

Até onde sei o ministro Gilmar Mendes é membro do Judiciário e não do Legislativo ou Executivo. Ele deve se manifestar sobre assunto que estiver na Suprema Corte e não fazer comentários políticos como se fosse porta-voz de uma corrente política oposicionista.

Em Pernambuco há cerca de 100 famílias acampadas há oito anos esperando uma decisão judicial sobre duas áreas em litígio. As famílias, mesmo trabalhando, plantando e tirando da terra o seu sustento, sofreram mais de 20 despejos.

Ora, um fazendeiro contrata pistoleiros, transformados em santos pelas declarações do ministro Gilmar Mendes, que foram armados ao acampamento fazer provocações. A reação foi no mesmo grau de intensidade e os quatro pistoleiros foram mortos. Volto a repetir que defendo uma solução negociada e dentro da lei e não na bala. Pergunto: Há santos nesse episódio?

Vamos ao episódio do IAPI, na comunidade Nova Divinéia. Um policial federal foi covardemente assassinado e a polícia deveria agir. Isso é evidente, porém, entrar metendo o pé na porta de casebres como mostrado na televisão, sem nenhum mandado judicial, isso é legal e aceitável? Por que não atuam assim contra o banqueiro Daniel Dantas que inclusive foi liberado da cadeia em prazo recorde pelo ministro Gilmar Mendes.

Os delinqüentes que mataram o policial deveriam ser capturados, presos, julgados e condenados pela Justiça. Isso ocorreu? As famílias que moram no local estão aterrorizadas até hoje com o episódio.

Parece que o lema de legalidade só serve para os ricos. Não se pode prender um rico sem que transite em julgado em todas as instâncias a ação judicial. Ora, metade da população carcerária brasileira, de acordo com números oficiais do Ministério da Justiça, espera decisão semelhante àquela que o banqueiro Daniel Dantas recebeu do presidente do Supremo Tribunal Federal. Do total de 422.373 presos em todo o País, mais de 211 mil estão em situação provisória - ainda sem condenação - e poderiam aguardar o julgamento em liberdade, como ocorreu com Dantas. A diferença é que o pobre, o ladrão pé-de-chinelo, depende de uma Defensoria Pública superlotada e carente de recursos. Os ricos...

Em relação ao relatório apresentado pelo deputado federal Nelson Pelegrino (PT-BA) na CPI dos Grampos, mais uma vez se pegaram os bagrinhos e os peixes grandes escaparam. O juridiquês das explicações não consegue convencer meu sentimento de que é mais fácil atingir aos menores que aos maiores. Se mais de três mil sofrem escutas ilegais, porque apenas cinco policiais civis foram apontados para indiciamento? Cadê os outros, inclusive os da Bahia que grampearam o próprio deputado Pelegrino?

Creio que chegou o momento, ou melhor, passou do momento de reagirmos de forma coletiva. As entidades sindicais e populares são representantes de suas bases e devem atuar nesse sentido e não se calar diante da escalada do conservadorismo venha de onde vier.

Encerro propondo que as centrais sindicais, em especial a CUT, e as entidades sociais em geral abram um debate amplo e franco com todos os setores da sociedade que não desejam nenhum retrocesso no processo político e social do Brasil, em especial o da retirada de direitos constitucionais e trabalhistas como ameaça a nebulosa nuvem que paira sobre a sociedade. Precisamos de uma ação unitária para manter e ampliar nossos direitos.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Mulher atrás de um grande homem?

Dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher e quero aproveitar este período para discutir e tentar derrubar alguns mitos que se petrificaram em nossa cultura. Um deles é o tal: "Atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher". Ora, por que atrás e não lado a lado, por exemplo?

Uma figura pública que demonstra como uma mulher não pode e não deve ser engolida pela personalidade do marido foi a professora Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ela fez sua própria carreira, tanto acadêmica como política. Nunca abriu mão de suas convicções, criticava o governo do próprio marido e defendia projetos sociais que sempre acreditou. Essa é uma grande mulher que merece nosso respeito independente das convicções políticas de cada um.

Na Bahia, Fátima Mendonça, esposa do governador Jaques Wagner, aparece como uma promessa de mulher independente e solidária. Vamos ver.

Quero aqui prestar uma homenagem a diversas mulheres que atuam nos sindicatos dos trabalhadores e com garra construíram sua própria história e referência em um ambiente quase sempre dominado pelos homens. Faço uma referência especial à nossa coordenadora geral do Sindilimp-BA, Ana Angélica Rabello. Quando foi eleita sofreu uma série de agressões morais de antigas e superadas direções que não a aceitavam como dirigente principal da nossa entidade. O machismo se manifesta em todos os ambientes, infelizmente.

Sou da categoria dos trabalhadores em limpeza onde a maioria das trabalhadoras é negras e na escala social ainda sofrem todo o preconceito e desvantagens do sistema injusto e racista do país. Nunca é demais repetir que todas as pesquisas mostram a mulher negra como a que ainda apresenta baixa escolaridade, trabalha mais e não ganha o mesmo salário dos homens e tantos outros obstáculos.

Conheço diversas mulheres negras que com muita luta e competência conquistaram melhores cargos, algumas são referências nas universidades. Quando conversamos, várias falam do preço alto pago pela conquista porque elas tiveram e têm que comprovar além da competência profissional a superação do preconceito racial e de gênero.

Tenho orgulho de ser descendente de mulheres guerreiras. Foi assim que chegamos aqui. Foram elas que ao lado dos homens negros lutaram nos castelos prisionais, porões dos navios negreiros, casas grandes e senzalas.

Já falamos aqui sobre a personalidade da mulher que não aceitou "ficar atrás de um grande homem" e da resistência da mulher negra. Para finalizar quero comentar sobre a luta mais geral da mulher, em especial a trabalhadora, contra a violência doméstica e pela conquista de direitos iguais no ambiente do trabalho.

A lei Maria da Penha significa um avanço para erradicar a violência e a discriminação contra a mulher, porém, muito ainda há por ser feito. Temos que caminhar muito pela igualdade de direitos. Não basta apenas o reconhecimento legal. Falta ainda o reconhecimento moral da igualdade e esta é uma conquista do dia-a-dia. Aqui entra o papel fundamental da educação e conscientização. É uma questão de respeito.

Espero que esta discussão não fique apenas neste período do Dia Internacional da Mulher, mas que seja uma constante. A luta da mulher é a luta de toda sociedade pois a mulher livre liberta também o homem do papel autoritário que a sociedade machista definiu como sendo o dele.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O lugar do negro no Carnaval da Bahia

A preservação da cultura negra no Brasil, em especial em Salvador, a maior cidade negra fora da África, interessa não apenas aos afrodescendentes e sim a todos os brasileiros porque ela é um dos pilares do que somos hoje enquanto povo e nação.

Além do extermínio físico da nossa juventude, vemos também a tentativa de destruição de nossa identidade cultural e ofuscar nossa herança, como se isso fosse possível.

No período do Carnaval o que mais vemos são discussões sobre a democratização da maior festa popular de Salvador. Qual é o lugar do negro no Carnaval da Bahia? Esse é o questionamento que faço.

Quando se discrimina os blocos afros, afoxés e outros grupos que reúnem em sua maioria afrodescendentes entendemos que isso representa um ataque à nossa cultura, nossa origem e nossa raiz.

Uma coisa lamentável que não se rompe por falta de vontade política é a famigerada ordem de entrada na avenida. Os blocos de trio são os donos, parece até que por vontade divina ou hereditariedade, do espaço público. Há uma série que nunca se rompe e que deixa os blocos afros somente para a madrugada. Por que não se estabelecer um novo critério que acabe com uma regra que o povo negro não estabeleceu já que o Ilê Aiyê, por exemplo, iniciou suas atividades em 1974? Por que esconder a negritude de nossa cidade?

Até mesmo uma grande parte dos compositores das músicas gravadas pelas grandes estrelas da chamada “Axé Music” são moradores dos bairros mais carentes como Nordeste de Amaralina, Engenho Velho da Federação, Liberdade, Subúrbio Ferroviário e outros. Não por coincidência são “quase todos pretos. Ou quase pretos”. São desconhecidos e invisíveis. A música é sempre atribuída ao intérprete. Quem ganha com a invisibilidade do negro?

Temos uma cultura de resistência e vamos continuar nessa postura. Não aceitamos ser coadjuvantes em nossa própria casa. Nossos sábios e mestres podem não ser citados, mas é nossa a cultura que eles cantam mesmo nos negando. Acabar com isso não se faz do dia para a noite porque temos que levar em consideração que um quinto da existência do Brasil se deu debaixo de uma brutal escravidão do negro.

A resposta dos negros sempre teve na cultura sua forma mais forte para superar as dificuldades e neste momento que se discute o Carnaval é oportuno que a sociedade debata com firmeza a questão de combate ao racismo e destruir a imagem mental de inferioridade que tentam colocar sobre a população negra.

Encerro homenageando Jucelina Santos Nascimento, Mãe Bandagola Unzambi, do Terreiro Unzó Niquice Kwa Ningunzo Kayango, nossa querida companheira Cecé, falecida no dia 15 e o corpo enterrado no dia 17 de fevereiro. Que sua luz continue nos iluminando e que possamos continuar sua luta por uma sociedade igualitária e justa como ela sonhou.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Orgulho de ser da diretoria do Sindilimp-BA

A diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia (Sindilimp-BA), a qual tenho orgulho de pertencer, pensa longe e pensa grande. Não paramos apenas em reivindicações econômicas. Queremos ir mais e mais longe e dotar a nossa categoria e seus familiares de auto-estima cada dia mais forte.

Pensando assim e não aceitando o lugar menor que a sociedade racista quer nos colocar, firmamos uma parceria com o Instituto Solvi, gestor das ações de responsabilidade social das empresas do grupo Vega e logo após o Carnaval iniciaremos um Curso de Capacitação e Inclusão Digital.

O Curso de Capacitação e Inclusão Digital está aberto para o trabalhador em limpeza e seus dependentes. Ofereceremos noções básicas de Word, Excel, Windows e Internet.

O objetivo do Sindilimp-BA é firmar outras parcerias com empresas, organizações governamentais e não governamentais e assim contribuir com o aprimoramento da categoria e possibilitar aos dependentes, em especial os jovens, uma chance maior e mais qualificada de entrar no mercado de trabalho.

Onde está a economia de recursos públicos no governo da Bahia?

Mais uma vez solicitamos do governo do Estado da Bahia uma resposta a nossa questão acima.

A diretoria do Sindilimp-BA tem um compromisso com a categoria não apenas no aspecto sindical, defesa de melhores salários e condições de vida dignas. Atuamos também na questão social e como cidadãos queremos que se mude o que está errado nas administrações municipal, estadual e federal.

Quando houve a mudança de empresa para cuidar da limpeza na área de Saúde na Bahia pensávamos que finalmente haveria transparência e os recursos públicos seriam gastos não para beneficiar empresários e sim para melhor os postos de saúde, hospitais, escolas etc.

Com tristeza vemos que isso não ocorreu. O contrato que existia antes com a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) era em torno de R$ 2 milhões. O atual é de cerca de R$ 5 milhões. Onde está a economia? Por que não se toma uma medida imediata para acabar com esta farra e este absurdo?

Tivemos que entrar na Justiça e felizmente vencemos. O juiz Josevando Souza Andrade, do Tribunal de Justiça da Bahia, atendendo mandado de segurança impetrado pelo Sindilimp-BA concedeu liminar contra a Secretaria da Administração (SAEB) suspendendo a contratação de empresas terceirizadas que prestariam serviços nas unidades de saúde pública em todo o estado.

Esta é uma vitória de toda a sociedade e dos trabalhadores em especial. Queremos o máximo de transparência para que a população não veja recursos públicos serem gastos de forma indevida.
Queremos o uso correto, criterioso e transparente dos recursos públicos e que os trabalhadores terceirizados não fiquem expostos a mais um drama de poder ficar sem emprego.


Esperamos e confiamos que a Procuradoria Geral do Estado, Assembléia Legislativa, SAEB, Secretaria de Saúde (Sesab) e demais interessados abram uma discussão verdadeiramente democrática. Queremos um amplo debate, de preferência em audiência pública, para que os interesses maiores da sociedade sejam salvaguardados.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Segurança pública não pode ser sinônimo de violência racial

É inegável que a sensação de violência e a criminalidade precisam ser reprimidas pelo Estado, em nosso caso na Bahia pelas polícias Civil e Militar. O que vemos na periferia, no entanto, é o medo dos moradores tanto diante da violência da marginalidade quanto das polícias, em especial a PM.

No dia 22 de janeiro o jornal A Tarde publicou que até aquela data já se registrará, com números oficiais, 30 mortes de jovens em supostas trocas de tiros com as polícias Civil e Militar. Os números falam por si e não deixam margem para dúvidas.

Não propomos que o governo do estado fique imobilizado e deixe as polícias sem atuar contra o crime, porém, não podemos ver tanto jovem, negro e da periferia ser assassinado e ninguém tomar uma medida.

Ninguém mesmo! Do lado do governo vemos a conivência de todos e até mesmo a Sepromi (Secretaria da Promoção da Igualdade) que em tese foi criada para combater toda forma de racismo, inclusive a violência policial, não atua como deveria. No movimento social existem várias entidades que sempre foram ativas, mas como seus dirigentes estão vinculados a partidos políticos da chamada “base do governo”, pouco ou muito pouco foi feito.

Não podemos e não devemos nos calar diante da matança camuflada em “auto de resistência a prisão”. Quando se mostra algum morto com antecedentes criminais logo se diz que “era mais um traficante”. Ora, se é para combater o tráfico de entorpecentes de forma séria por que não atacar os grandes traficantes internacionais e seus braços baianos que se localizam não nas invasões e bairros periféricos e sim nos mais chiques endereços da cidade? Por que combater só o traficante varejista que se esconde em um casebre qualquer nos bairros pobres?

Não da para aceitar que batidas policiais feitas em nome da segurança pública deixem nos bairros pobres a juventude negra jogada no chão com “tiros pelas costas, pelos vidros traseiros dos carros, na cabeça, no tórax, de cima para baixo, a queima-roupa, o que revela a intenção de matar dos agentes do Estado”, conforme já foi publicado também por A Tarde.

Solicito ao governador Jaques Wagner que atue neste campo, observe os dados e mude verdadeiramente o que precisa ser mudado para dar um basta ao assassinato da juventude negra e pobre. Ao Ministério Público solicito uma ação não de censura, mas de restabelecimento da dignidade humana. A mídia sensacionalista tomou para si o direito de julgar, condenar e expor ao ridículo na televisão jovens presos, alguns até em tempo real. Será correto delegados e policiais civis e militares aparecerem dia sim outro também nesses programas acusando e chamando de perigoso marginal alguém que acabou de ser detido e ainda não foi julgado legalmente?

Finalizo dizendo que quero segurança pública, sim. Não, porém, ao preço de desprezo da lei que abre caminho para um estado policial e de exceção.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Uma vergonha chamada novela de Pituaçu

Sou torcedor do Esporte Clube Bahia, time que inaugurou em 1979 o Estádio Metropolitano Roberto Santos, que por razões políticas ou não ficou mais conhecido como Estádio de Pituaçu, porém, não é possível ver os absurdos cometidos com o dinheiro público para agradar a torcida tricolor.

Depois da tragédia da Fonte Nova que ocorreu no domingo, dia 25 de novembro de 2007, quando sete pessoas morreram, sendo que uma era membro da nossa categoria, dos trabalhadores em limpeza, Djalma Lima Santos, ficou patente que o problema maior do E.C.Bahia é a falta de competência administrativa, no mínimo. da direção do clube.

O E.C.Bahia é um clube, um negócio particular e dinheiro público é para ser gasto com a população em geral e não para beneficiar um negócio privado. Se o E.C.Bahia é deficitário por que não se larga o osso e deixam novas pessoas e novas direções assumi-lo? Já se vendeu dezenas de jogadores a preço de ouro. Daniel Alves é um exemplo mais recente. Onde e como se investiu os recursos dessas transações?

Vejo com tristeza na página da Conder na internet notícias sobre o Estádio de Pituaçu referindo-se apenas ao Bahia. A Conder está a serviço do clube ou do Estado?

Falo como cidadão e não como torcedor. Moro perto do Estádio de Pituaçu e poderia ir andando até lá. Quero ver o Bahia jogar em Salvador nos braços de sua torcida, mas não a qualquer preço.

A reforma do Estádio de Pituaçu foi orçada em janeiro de 2008 a um custo em torno de R$ 22 milhões no total. Não sei se pela responsabilidade, ou falta dela, da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur) ou da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder) chegamos a algo em torno de R$ 55 milhões de acordo com números oficiais.

O torcedor tricolor e os desportistas em geral, para ser mais exato, a população baiana toda, sem nenhuma distinção, precisa de casas populares, saneamento básico, saúde e educação públicas e de qualidade e tantos outros investimentos sociais do governo do Estado da Bahia. Será que neste momento e com tantas outras prioridades foi correto gastar R$ 55 milhões ou mais em um estádio de futebol?

Quero manifestar minha opinião independente e antes de saber a decisão do Instituto de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Claro que depois de se gastar tanto dinheiro público não vou propor a implosão do estádio que lá está desde 1979, porém, que as concessões para que o E.C.Bahia e demais clubes ou atividades particulares façam uso do espaço público sejam transparentes e mostrem que não mais em nossa terra as coisas serão feitas por baixo do pano ou com acordos políticos obscuros.

Como torcedor quero que o E.C.Bahia seja campeão. Como cidadão defendo, repito, que dinheiro público seja usado em benefício da maioria da população. Viva o Bahia! Viva a Bahia!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Contra o genocídio em Gaza

Acompanhamos com pesar desde o dia 27 de dezembro o massacre dos palestinos na Faixa de Gaza agora ocupada por terra pelo Estado de Israel. Dados parciais da Cruz Vermelha Internacional falam da existência de pelo menos 600 mortos e 3 mil feridos.

O Movimento Islâmico Hamas é chamado de grupo terrorista e radical. Para nós terrorismo é o praticado pelo governo israelense contra o povo palestino. Estão fazendo na verdade uma “limpeza étnica” e promovendo a matança de crianças, idosos e civis em geral. Tudo realizado sob a justificativa de estar reagindo em defesa própria. Como estudante de Direito sei que a legítima defesa significa usar força igual a existente em seu oponente para se defender. Como comparar estudantes e crianças com pedras aos tanques de guerra? Como comparar mísseis lançados de uma laje aos utilizados por Israel com os aviões de guerra mais modernos do mundo?

Constatamos não a legítima defesa e sim a desproporção no genocídio imposto aos palestinos por Israel.

Esperamos que as entidades representativas dos trabalhadores organizem manifestações repudiando as ações do governo de Israel contra o povo palestino que tem levado a esse quadro de destruição e de terror aos civis da Faixa de Gaza. Desde já o Sindilimp-BA (Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia) se coloca à disposição para participar como um dos organizadores da atividade que deve ser coletiva.

Queremos que se abra uma solução negociada em defesa da vida e da paz e pelo imediato “cessar fogo” naquela região.